28/12/2013

La Vie d'Adèle – Chapitres 1 & 2

Realizador: Abdellatif Kechiche
Baseado na banda desenhada: Blue Is the Warmest Color de Julie Maroh
Atrizes principais: Adèle Exarchopoulos, Léa Seydoux
Trailer: aqui

É um daqueles filmes para ir de ânimo leve, espírito aberto e, depois, deixar-se levar, deixá-lo fazer de nós o que ele quiser. A promessa de se sair dali extasiado é muito grande. A pergunta é: «É possível o coração perder alguma coisa?»

É um filme sobre o amor, decididamente, sobre a descoberta pessoal, mas também é um filme sobre a existência, o propósito da vida. Somos capazes de ser felizes ao vivermos uma vida banal, sem qualquer acto criativo, sem fazer dela arte? Vale a pena viver uma vida assim? E criar é o quê? O que é preciso para criar?

Por um lado, Emma, a artista, que não consegue amadurecer a sua técnica de pintura e encontra na beleza singela de Adèle uma fonte de inspiração. Por outro, Adèle, uma miúda normal, com um sentido muito prático da vida, que acredita no acaso e nas paixões assoladoras. O que as liga é um desejo carnal, visceral de se possuirem. Não partilham os mesmos gostos, vêm de famílias muito diferentes e encaram a vida de um modo muito diferente. Emma afirma-se, projeta-se, exibe-se, sorve a vida para a representar depois. Adèle vai deixando o mundo espreitar pela fechadura da sua intimidade, rodeada de mistério, construindo pequenas mentiras, dissimulando, com o seu rosto de miúda, uma mulher forte, sedutora, atraente e voraz.

Aquilo que seria uma paixão de adolescência continua por vários anos e enquanto Emma deixa Adèle entrar na sua vida, penetrar o seu pensamento, o seu trabalho, Adèle desenvolve-se como mulher e pessoa, mas não se enfrenta, não se afirma. Não admite a sua homossexualidade, apesar de isso não ser um impedimento para a viver. De certo modo, quer dar-nos a entender que é bissexual, quando é evidente a sua tendência para o sexo feminio.

A evolução na vida de Emma só poderia acontecer a par da sua evolução como artista. E ela queria romper com tudo para evoluir. Adèle não tinha propriamente vontade de evoluir, saltar barreiras. O tempo trouxe um certo vazio para a sua vida, em parte devido ao desgaste que o trabalho vai provocando nela, em parte pelo abismo que vai rompendo entre ela e Emma. Adèle adora o seu trabalho e vê-se que a preenche, mas não é uma coisa que pudesse partilhar com Emma, pois esta não o entende, nem aprecia. Poderia pensar-se que Emma era o seu refugio à vida banal, mas Adèle não via a sua vida como banal. Ela chegou onde quis e com quem quis.

Se reagimos à pergunta do professor de francês como adolescentes, não sabendo o que pode perder um coração, ao fim de três horas, depois de muita baba e ranho, sabemos exatamente o que podemos perder, o que perdemos e o que temos medo de perder.

Catártico. *****