09/01/2011

“Drei” ou “Três”

A partir do cartaz e da sinopse sabe-se que aí vem uma relação a três. Não sei quem é o realizador, quem são os actores, sei que é um filme alemão. O filme começa e apenas espero encontrar os personagens que originarão o conflito: o drama de uma relação triangular. Shakespeare adaptado ao século XXI.
Comecemos então por desvendar os personagens. Hanna, uma mulher madura, com uma carreira profissional e um casamento estável, é peculiar, temperamental, eloquente, refutativa. Simon, o marido, é um ser mais calmo, intelectual, artista, sentimentalista e todos os outros istas. E o terceiro é Adam.
A variedade dos temas abordados desvia por completo o foco do romance prestes a revelar-se, que aliás não se consegue dizer que é um romance se não no iminente fim. Discute-se arte, psicologia, sociedade, biologia, a vida e a morte, ou não fosse um drama renascentista. A famosa característica desta época "play within a play" não faltou e curiosamente com a representação dramatúrgica dos Sonetos de Shakespeare. Diria que o filme é uma adaptação shakespeareana ao século XXI, pelo menos por todas as alusões quer literárias, quer pictóricas a este autor britânico que surgem em todo o filme.
Hanna e Adam, que inicialmente têm um confronto, quando ele apresenta a sua tese e Hanna a questiona, acabam por se encontrar ocasionalmente nas bilheteiras para a peça de Shakespeare e por a ver juntos. No final da peça, a relação de ambos muda, como se o teatro a tivesse feito renascer. Como se o Puck se tivesse colocado entre ambos durante a encenação e enquanto estes sonhavam de olhos abertos ele tivesse deitado o seu pó mágico sobre eles.
Adam é um ser carismático: tem uma postura imponente que faz lembrar um Deus grego, loiro e ombros largos e um sorriso angelical. Confronta, quando tem de o fazer, mas sempre de um modo sublime. Não é fácil descobrir quem ele é, uma vez que os outros personagens se revelam à primeira vista muito mais complexos. Ele é biólogo, investigador com foco na reprodução. Nos tempos livres joga futebol e não deixa crer que haja um mínimo de intelectualidade em si. Pragmático, racional. No entanto, e à medida que o filme se vai desenrolando, começamos a descobrir um ser com muitas faces: para além de investigador é cantor, pratica judo, joga futebol, tem um amante, tem uma ex-mulher e um filho que vivem numa casa que parece um conto de fadas, tem uma moto e veleja um barco. O seu ritmo diário faz pensar que ele é uma máquina, perfeita, perfeito. Começa mesmo por meter medo, ser sem sentimentos. Adam ou Adão que não tem receio do sexo, antes o vê como uma coisa natural, humana. Não se deixa seduzir, ele é quem seduz. Intimida pela forma como refuta as ordens de Deus. No final do filme revela-se como o ser mais humano de todos, que tem as suas dúvidas e também se apaixona.
Os conflitos começam a surgir quando o Simon não aparece ao teatro como combinado e por isso, dá espaço para que Hanna e Adam se possam conhecer melhor. Surgem após a mãe dele revelar que tem um cancro irreversível e morre pouco tempo depois, aproximando os personagens pela primeira vez da morte e da urgência em viver. No mesmo dia em que a mãe morre, Simon descobre que tem um tumor malígno num dos testículos e que tem por isso de ser operado de urgência. Nesse mesmo dia, enquanto ele procura alcançar Hanna por telefone, esta está com Adam a ver um jogo de futebol. Ele faz um completo drama da sua situação, prevê que nunca mais poderá ter filhos ou mesmo sequer ter sexo com Hanna, imagina que vai morrer, uma série de medos apresentados de um modo cómico, embora a situação seja séria. Os dois estão juntos há vinte anos e nem se aperceberam do tempo passar. Enquanto Simon é operado e passa por um dos piores momentos da sua vida, Hanna está com Adam e, apesar de por fim cair em si e querer literalmente fugir da situação em que se meteu, acaba por se deixar seduzir por Adam e os dois mostram-nos uma primeira cena de sexo por um lado estimulante, por outro desconfortável, uma vez que como espectadores sabemos o que está neste preciso momento a acontecer com Simon. Tudo leva a crer que a tragédia está prestes a despoltar.
Na manhã seguinte Hanna volta para casa completamente renovada e feliz, mas assim que descobre que Simon não está em casa é como se a luz se tivesse apagado no palco, o chão fugido, o céu caído. Aparece uma cena altamente simbólica em que ela de capuz negro sobre a cabeça puxa uma carroça com um caixão, enquanto Simon caminha em marcha fúnebre velando a sua própria morte, os dentes a cairem-lhe da boca e Hanna com um olhar de cumplicidade por levá-lo à própria cova. Mas ele sobrevive e ela fica com ele. Não se sabe ao certo o que aconteceu. Ela não fala do assunto, ele também não e ambos aceitam o facto de Simon não poder ter mais uma relação sexual normal e decidem até casar-se, partir para uma nova etapa na sua relação, em que o amor se sobrepõe ao sexo.
Até que um dia Simon resolve ir até à piscina. Aqui ele assiste a uma cena de sexo no balneário. Ri incrédulo, ao mesmo tempo sabe que ele próprio não poderá jamais fazer o mesmo. A piscina está quase vazia: para além dele, apenas o Adam. Sim, ele encontra o Adam e só nós, os espectadores sabemos de que modo é que os dois estão ligados. Eles metem conversa, fazem uma pequena corrida, simpatizam um com o outro e naquele ambiente relaxado de piscina de água quente fazem uma piada sexual e o Simon acaba por revelar que não poderá mais "tê-la levantada" pois acabara de levar um dos testículos à faca. A cena chega a ser ridícula, tendo em conta que Simon acabara de contar ao amante da mulher que ficara para sempre impotente. Os dois vão para o balneário e Adam não consegue evitar de olhar para o corpo nu do Simon. Este está completamente alheio, como aliás é parte da personalidade dele, e apenas se apercebe do que está para acontecer, quando o Adam lhe pergunta se pode ver o resultado da operação dele. Simon ri completamente surpreso e aos poucos começa a ficar sem reacção, é como se lhe tivessem acabado de arrancar o outro testículo também, é como gato pingado. O Adam vai-se aproximando dele, toca-lhe e masturba-o, até que Simon se vem. Enquanto Simon baixa os olhos embaraçado, fora ele um miúdo de dezasseis anos a ter a sua primeira erecção, Adam levanta-se com a maior das naturalidades, lava o peito, veste-se e sai sorrindo no seu jeito de anjo. Foi como se no "sonho de uma noite de verão" o Puck se tivesse enganado e deitado a poção mágica nos olhos do Simon desta vez.
A Hanna acaba por voltar a procurar Adam e assim começa uma relação a três, estando Adam no centro, sem que nenhum deles desconfie.

O filme é uma obra de arte. É uma obra de arte cinematográfica, literária, teatral, científica, documental... O filme é a melhor adaptação shakespeareana de todos os tempos. É catártico, é a desconstrução de uma série de preconceitos actuais, em que bastava um momento mal conduzido para destruir tudo, o que não aconteceu. Foi tudo apresentado de tal forma a conseguirmos como espectadores ultrapassar uma série de barreiras psicológicas para aceitarmos naturalmente situações que de outro modo tomaríamos por anormais e até doentias. E é nesse momento que surge a catarse: saímos do filme com um sorriso nos lábios, apaixonados, renovados, prontos para ver o mundo com outros olhos.

O realizador é Tom Tykwer. Um outro filme de referência dele é "Lola Rennt" e como neste filme, que vi quando tinha 19 anos e me deixou completamente apanhada, a actualidade da temática e a forma inovadora como ele a apresenta é magnífica.
Para ver o trailer e saber mais sobre o filme: aqui (no original)!

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